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Ser criança - Encantos e Desencantos

Denise Schmitt Garcia


“Todas as pessoas grandes, um dia foram crianças, mas poucas se lembram disso”.

Antoine de Saint-Exupéry / O Pequeno Príncipe



Nos dias de hoje, ser criança não é como era antigamente. Os pequenos acabam adquirindo um ritmo de vida agitado e a rotina estressante chega cada vez mais cedo ao universo infantil. Talvez, se os adultos lembrassem mais de como viveram seus primeiros anos de vida, não procurariam, consciente ou inconscientemente, encurtar a infância de suas crianças.


O cenário de liberdade, criatividade e fantasia, presente nas brincadeiras, está sendo substituído pelo acúmulo de informações que chegam com a força de um tsunami, trazendo muito conteúdo, mas levando sonhos, experiências e aprendizados que, muitas vezes, nem sequer tiveram a chance de serem vividos.


E nesse corre-corre cotidiano, aumentam as expectativas, as projeções de futuro e, consequentemente, os problemas modernos em torno da infância. Nunca tivemos tanta criança com dificuldade de aprendizagem, altos índices de obesidade, distúrbios emocionais e sociais e problemas como: stress, ansiedade, pânico e outros.


E olhe que essa batalha pelo respeito à infância é antiga! Vem desde Emílio, obra tão importante escrita pelo filósofo Jean Jacques Rousseau. Esse livro, além de balançar os alicerces educacionais do século XVIII, chamou a atenção para a importância da infância e deu-lhe um lugar definido na existência humana.


A infância passou a ter um verdadeiro valor e a ser vista como uma etapa fundamental para a constituição do ser humano. A criança deixou de ser considerada um adulto em miniatura e, com isso, Rousseau tornou-se, o “inventor da infância”.


Ah!... Rousseau, certamente você não poderia imaginar que fôssemos voltar no tempo após tantos anos, avanços, descobertas e tecnologias. Mas infelizmente preciso lhe dizer uma coisa: penso que, no formato da infância atual, estamos proporcionando às crianças a possibilidade de voltarem para a era dos pequenos adultos, porém, agora, com grandes problemas.


Meu trabalho gira em torno das questões da infância. Acho até que se eu não tivesse escolhido seguir minha vida ao lado das crianças, provavelmente, nunca deixaria de ser uma criança. Algo parecido com um adulto Peter Pan, que não aceita crescer! Exatamente na contramão do que se espera das crianças nos dias de hoje.


Mas como poderíamos respeitar mais a Infância? Vou recorrer a alguns verbos para ajudar a desenvolver o meu raciocínio: desacelerar, perceber, estimular, aceitar, educar, apoiar, brincar e valorizar.



Desacelerar


Em primeiro lugar, é preciso respeitar o tempo e o indivíduo.


O tempo, pois cada um tem um ritmo de trabalho, desenvolvimento, processamento e autocontrole. E o indivíduo, que tem características pessoais, necessidades, habilidades, interesses, opiniões e desejos que movimentam a sua vida. Esses dois elementos são primordiais para começarmos a refletir sobre as questões da infância!


Criança não pode ter pressa para tudo! Enquanto ela realiza as atividades de rotina, está aprendendo coisas e significando o mundo. Não pode, por exemplo, se alimentar no carro entre uma atividade e outra; sair correndo de casa por conta do rodízio; tomar banho rápido para não chegar atrasada à festinha...


Desacelera! A pressa é sempre do adulto! E se a criança está atrasada para algo, a responsabilidade é de quem não soube organizar o tempo de maneira eficiente, para lhe dar o tempo suficiente.


Ninguém consegue aprender sobre organização em meio a correria. É preciso desacelerar a vida dos pequenos!



Perceber


Exercite um olhar diferenciado para a sua criança. Perceba seus pontos fortes e fracos e procure ajudá-la também nessa autoanálise.


As crianças, assim como nós adultos, são diferentes entre si e não podem ser comparadas umas com as outras, principalmente para destacar aquilo que julgamos ser uma falha ou ponto fraco. Se o seu filho ainda não consegue ler aos sete anos de idade e o da sua colega de trabalho já recita poemas, tudo bem! Isso não garante que o filho dela esteja mais feliz ou aprendendo mais com os poemas do que o seu. Nem que um dos dois é mais inteligente que o outro.


Ao invés de ficar pensando no porquê de seu filho ainda não ler, procure perceber o que ele faz de melhor e acalme o seu coração. Crianças que não têm alguma dificuldade identificada, sempre conseguem ler, mas cada uma em seu tempo.


Para ajudarmos as crianças a terem autoestima e autoconfiança, precisamos, primeiramente, demonstrar confiança nelas e admirá- las.



Estimular


Estímulo não significa antecipar etapas ou comprar todos os brinquedos do mundo para manter a criança ocupada. Estimular a infância é exatamente o contrário disso. É respeitar cada uma das etapas, permitindo que a criança viva cada fase de desenvolvimento sem acelerar ou pular nenhuma experiência.


Se ela não está pronta para andar com doze meses, espere! Mas ofereça situações em que ela possa despertar o interesse e a confiança para essa nova aquisição. Se seu filho tem quatro anos e ainda usa fralda, tudo bem. Leia livros com ele sobre desfralde, leve-o ao banheiro com você ou mostre que as fraldas estão ficando pequenas.


Se a criança está com dificuldade em se alfabetizar aos seis anos, ajude-a. Leia o mundo, estimule a leitura em todas as oportunidades do dia a dia, ajude a escola, mas não a menospreze. Muitas vezes, para estimular você precisa se desapegar de algumas regras.


Ao contrário de comprar brinquedos, incentive seu filho a aproveitar o que ele tem em sua volta para desenvolver algo novo. Dessa maneira, você estimula a criatividade, aumenta o exercício da reconstrução e do reaproveitamento, diminui o tédio e mantém o cérebro sempre pronto para novas possibilidades.


As sucatas são sempre uma boa opção. Muitas vezes, uma garrafa pet exerce a mesma função de aprendizagem que um brinquedo caro, e não custa nada.



Aceitar


É muito importante que a criança se sinta aceita e acolhida em sua própria casa. Que ela sinta que o seu lar é um espaço para errar, acertar, se frustrar, chorar, testar e se aventurar. Que saiba que não precisa ser perfeita e nem atender às expectativas dos pais sempre!


Crianças que crescem em um ambiente livre tendem a apresentar menos problemas sociais e emocionais no futuro.


E não se preocupe em demonstrar as suas próprias fraquezas e inseguranças. A criança se espelha nos pais tanto nos bons momentos quanto nos difíceis. E a família constrói a vida juntos.


As crianças de hoje pensam de forma diferente, agem diferente e pais e filhos precisam se entender nesse cenário, dentro de um mesmo círculo familiar. É preciso aceitar que a vida deles é, muitas vezes, somente diferente da nossa e não melhor ou pior, nem certa ou errada. Na aceitação é preciso respeito!



Educar


O educar ao qual me refiro está associado a dar limites e a transferir valores. Mesmo sem perceber, damos exemplos bons e ruins. E é importante que tenhamos consciência da participação familiar no processo de formação das crianças.


É fundamental destacar que o educar pedagógico, de competência e responsabilidade da escola, é bastante diferente desse educar da família. Aliás, esse é um sério problema que enfrentamos atualmente: a transferência de competências parentais para as atribuições da escola. Em minha opinião, esse erro pode contribuir para o fracasso escolar de uma geração inteira.


A criança precisa ser educada em casa! Ela precisa entender e diferenciar esses dois tipos de educação para conseguir se organizar e se inserir nos diferentes contextos de sua vida. Precisa aprender em casa a respeitar os outros, a compartilhar, aceitar limites, se posicionar adequadamente em sociedade, valorizar, ouvir sim e não de maneira equilibrada...


Na escola, essas habilidades também são desenvolvidas. No entanto, é preciso ter consciência de que a responsabilidade real da escola é: formar, ensinar, preparar e desenvolver pedagogicamente a criança para atingir novos níveis de conhecimento. Contribuir para que a pessoa que está sendo formada, tenha condições de escolher um caminho para seguir no futuro.


Como diz o grande médico e filósofo Donald Winnicott, “Tudo começa em casa”!



Apoiar


Para manter o bom desenvolvimento da criança e melhorar a qualidade da infância é preciso que nós, pais, possamos oferecer uma retaguarda em questões como: organização, rotina e cuidados específicos em cada etapa da vida.


Criança precisa ter uma rotina organizada: tempo para dormir, comer, brincar, ficar sem fazer nada, tomar banho, ver amigos...

Para as crianças pequenas, costumo fazer um quadro com cartolina, para que consigam ver no concreto, tudo o que irá acontecer em sua vida naquela semana, mês ou até mesmo naquele dia. Fazer este quadro costuma diminuir, consideravelmente, a ansiedade e a insegurança dos pequenos.


Quando eles entendem quem cuida do quê, quem faz o quê e quando algo acontecerá, problemas como choros, birras e inquietações costumam diminuir no dia a dia.



Brincar


Já sabemos que a brincadeira é vital para o bom desenvolvimento da criança. É através dela que surgem as experiências, as novas necessidades, as inseguranças, os desafios... e o aprender acontece de maneira espontânea, ampla e completa.


É importante que a criança também possa brincar sozinha, livre e sem a interferência de um adulto. É claro, que brincar junto é sempre excelente e delicioso para a construção de vínculos e para a aprendizagem. Mas a criança que aprende a brincar sozinha consegue se organizar melhor, é mais autônoma, resiliente e mais criativa.


Muitas vezes, ao tentarmos participar de uma atividade, sem sermos convidados, acabamos atrapalhando o raciocínio da criança. Instintivamente mudamos o brincar que estava sendo feito, inserimos regras, conceitos preestabelecidos e assim... tiramos a pureza e a simplicidade daquele brincar infantil. O ideal é que se respeite o tempo de brincar só, mas também reserve um momento para brincar junto.



Valorizar


Valorizar a infância, para mim, é uma tarefa diária! Seja ela moderna, diferente, acelerada, lúdica... a criança precisa ser criança e não alguém em desenvolvimento para uma vida adulta.


As crianças precisam de um olhar diferenciado, precisam de voz e força! Não acho justo despejar expectativas, desejos e ambições em alguém que ainda nem teve chance de se descobrir enquanto indivíduo.


As crianças são diferentes! Elas andam, falam, escrevem, jogam bola, falam inglês em tempos diferentes entre elas! Uns nasceram antes do tempo, outros carregam características genéticas importantes de dificuldades, uns tem exemplos fortes de sucesso em casa, outros enfrentam exemplos inadequados de conduta, uns carregam uma predisposição para esportes, outros são gênios musicais, uns são alunos excelentes pedagogicamente, outros arrasam socialmente...


As crianças, assim como nós, são incompletas e serão adultos incompletos também! E tudo bem!


Encontro muitas famílias entristecidas por conta do mal desempenho escolar do filho, da falta de habilidade social, das dificuldades em esportes tradicionais, da falta de interesse pelos negócios familiares... Enfim, perdeu-se um pouco o conceito da individualidade e do respeito à liberdade de escolha.


Em contrapartida, a vida está cada dia mais difícil e competitiva.

Como então, manter a infância, e dar “tempo ao tempo”, quando o que não temos hoje é exatamente o tempo?


É neste momento que penso na infância como forma de mudar essa relação negativista sobre o ser, o ter e o tempo. Para tornar este mundo mais criativo, aberto a novas possibilidades e a novas formas de pensar, respeitando às diferenças e desejando o bem- estar coletivo, é preciso voltar a nossa atenção para a infância.

Retomar e estimular os maiores encantos que vivemos quando pequenos, mas acabamos esquecendo com o passar dos anos.


Que graça teria a vida se não tivéssemos nada a ser melhorado! Se não tivéssemos algum desafio, nenhuma grande meta pessoal para ser atingida! O que nos motiva, estimula, e nos mobiliza? Para esse aprendizado, precisamos de tempo para crescer quando pequenos e quando grandes!


Portanto, curta a sua infância e a de seu filho! Lembre-se de quando era criança, compartilhe estórias e histórias, ouça as histórias dele, fantasie, crie possibilidades, tenha respeito e aproveite! Será uma experiência muito enriquecedora para todos, pode ter certeza!