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  • Denise Personal Kids

ENTREVISTA: DENISE SCHMITT GARCIA, PSICOPEDAGOGA

A importância do brincar na infância para a formação global da criança


POR FERNANDO RIOS




Denise Schmitt Garcia é psicopedagoga infantil e Personal kids. Há 14 anos, dedica suas energias e estudos às crianças, à infância e à melhoria da qualidade de vida infantil. Especializou-se em atendimentos familiares. Utiliza o brincar e o lúdico como instrumento para se aproximar do universo simbólico e concreto da criança, estimulando a aprendizagem e a melhoria na qualidade de vida infantil.


Ela propõe um novo olhar para as questões da infância, com o objetivo de contribuir para que as famílias consigam proporcionar um ambiente estimulante e acolhedor, capaz de mobilizar as crianças para enfrentar os grandes desafios que surgem em todas as etapas dessa vida em formação. Nessa fase da vida da criança, é importante estimular pontos fortes, minimizar pontos fracos, a fim de possibilitar o equilíbrio adequado no desenvolvimento cognitivo, social e emocional da criança.


Denise Garcia acaba de lançar o livro – “Felicidade Vem do Berço - A importância de valorizar a infância, celebrando diariamente o privilégio de cuidar e contribuir para a formação de uma nova vida”.


Nele, ela desenvolve sua principal tese: “Brincar é a coisa mais séria que uma criança pode fazer!


Nesta entrevista, algumas de suas principais ideias.


Nos últimos dez anos, a criança e a infância ganharam novos olhares. O que mudou nessa percepção?


Considero muitos contrapontos quando reflito sobre as questões da infância nos últimos 10 anos. Ao mesmo tempo em que se fala muito sobre a necessidade de cuidado, produtos especializados, estimulação, proteção e sobre o poder das influências digitais no desenvolvimento infantil, percebo também uma aceleração, uma super proteção e uma falta de espaço para que as crianças cresçam com liberdade.


Ser criança hoje é mais difícil do que há 10 anos. Hoje, parece que tudo oferece perigo; o comportamento precisa ser sempre politicamente correto; não há espaço para errar, fazer molecagens, sujeira e coisas bobas; coisas que também contribuem para a formação social, emocional e cognitiva das crianças. Tudo precisa fazer sentido, precisa contribuir com algo. Mas as crianças continuam sendo somente crianças, uma vida complexa, intensa, em processo de desenvolvimento.


Percebo que os pais, a escola, a sociedade e o mundo, de uma maneira geral, criam expectativas inatingíveis para os pequenos, incompatíveis com a idade cronológica, e assim... a infância encurta cada dia mais. Em muitas famílias de classe média e alta, é comum ver crianças pequenas fazendo aulas de chinês, inglês, tênis, hipismo... é um vai e vem sem fim. E o ócio, o brincar e o criar acabam sendo substituídos por um “algo mais importante”, que efetivamente contribua para o desenvolvimento de alguma habilidade futura. Costumo dizer às minhas famílias que as crianças não precisam de tanto, mas sim, precisam de tempo!


Outro ponto importante é que, com um mundo mais perigoso e pessoas mais intolerantes, é natural que os pais sintam a necessidade de proteger mais seus filhos. Mas nessa super proteção, muitas vezes, a sujeira, os ralados, as frustrações e os desafios acabam sendo substituídos por uma vida programada e sem riscos. Como ela aprenderá a valorizar o que é bom sem experimentar o que é ruim? Como exercitar a coragem e a autoconfiança sem correr riscos? Como desenvolver a autoestima sem

descobrir suas próprias capacidades? Penso muito nas crianças dos próximos 10 anos! Escrevi este livro propondo alguns alertas para pais, avós, professores e profissionais da área da educação e da psicologia infantil. Para mim, é necessária uma reavaliação de condutas, priorizando questões como: autonomia, inseguranças, tolerância às frustrações, autoestima, autoconfiança, criatividade, responsabilidade, compaixão, sustentabilidade, entre outras.


Acredito que as crianças precisam de mais tempo e liberdade, para depois conseguirem atingir a autonomia e a maturidade.


Como você vê a criança na pandemia e depois dela?


Foi muito triste tudo o que aconteceu com as crianças na chegada da pandemia. Para elas, o ano de 2020 não começou, as férias não acabaram, os pais ficaram dentro de casa e a rotina foi completamente alterada. Criança pequena se organiza pela rotina, ou seja, elas ficaram perdidas no início da pandemia até entenderem o “novo” normal. As crianças maiores sofreram com a falta da escola, dos amigos, com o homeschooling e com a privação social. Todos sofremos e ainda estamos tentando nos organizar e aceitar a nossa nova vida.


Teremos muitos prejuízos nessa geração de crianças e adolescentes que ficaram praticamente um ano sem frequentar as escolas. No ambiente escolar, acontece muito mais aprendizado do que se imagina. Na escola, as crianças precisam se adequar à vida em sociedade. Saem de suas zonas de conforto, precisam compartilhar, ceder, liderar, recuar, criar... tudo isso para “pertencer” a um grupo diferente, heterogêneo, muito importante para o seu desenvolvimento. É muito mais do que matemática, português, física, biologia!


O retorno das aulas presenciais é fundamental para trazer de volta a sensação de normalidade, organização e crescimento para a vida das crianças.


Todos nos tornamos diferentes com a pandemia! As crianças também! É preciso readaptação e paciência!


Qual o papel dos pais e/ou cuidadores na formação da criança? Como eles podem agora e poderão depois contribuir para que as crianças tenham uma infância saudável?


A criança cresce se espelhando naquilo que vê, nas condutas que lhe são passadas e nos limites que lhe são dados. Elas se organizam com base nesses limites, nas coisas que podem ou não realizar. Criança sem limites se perde e sofre mais para se adequar ao entorno e às situações inesperadas. Limites não significam proibições ou falta de liberdade. Adolescentes e adultos não podem fazer o que querem a todo o momento, por que então a criança poderia? É preciso crescer dentro de uma coerência de comportamento.


Resiliência e tolerância às frustrações são pontos que também abordo no livro e que estão relacionados com a responsabilidade dos pais e cuidadores.


O “não” tem um valor enorme para o desenvolvimento das crianças. O desenvolvimento emocional é progressivo, a absorção de valores e as habilidades psíquicas são adquiridas com o tempo, no dia a dia e com os modelos.


Uma criança cresce saudável à medida que ela entende a dinâmica familiar, a dinâmica da escola e assim, consegue se fazer presente e pertencente aos diferentes núcleos de convívio. É importante que a criança se sinta parte e não o centro do mundo. Em uma infância saudável, o egocentrismo normal da infância vai dando lugar à empatia, ao espírito de liderança, à solidariedade...


Felicidade vem de berço, portanto, dia após dia, o núcleo familiar exerce um papel fundamental na formação dos nossos pequenos.


Você defende que o brincar é essencial para o desenvolvimento harmônico da criança. Como você vê as distâncias sociais e sua influência na criança? Como ter uma escola pública mais bem preparada para formar adequadamente uma criança?


Os impactos positivos do brincar são inerentes à situação econômica. Muitas vezes, encontro crianças mais favorecidas que brincam menos e tem uma vida menos estimulante do que aquelas menos favorecidas, e vice e versa.

Brincar exercita a criatividade, desenvolve habilidades motoras, ensina a correr riscos, trabalha a competitividade (não confundir com competição), estimula a produtividade, propõe análises e exige escolhas. O brincar livre independe de brinquedos, atividades ou regras pré estabelecidas. Ele acontece diariamente na vida das crianças, é instintivo e natural. Uma criança com menos recursos pode brincar com a imaginação, com sucatas, com o espaço e as disponibilidades que têm em casa. Não vejo, de verdade, nenhum comprometimento do brincar relacionado à condição financeira.

Acho mais importante a disponibilidade de espírito, o treino da mente e a liberdade de ação do que a infraestrutura.


Quando penso na qualidade da escola pública penso primeiramente na capacitação dos professores e, aí sim, a infraestrutura se faz necessária! É preciso investir mais em uma formação efetiva e de boa qualidade, oferecer cursos e experiências para aqueles que recebem e transferem conhecimentos para as crianças. A desvalorização do professor é um ponto que me choca e considero uma das grandes causas na ineficiência escolar na rede pública. Para ensinar com alma você precisa estar realmente preparado, precisa estar tranquilo financeiramente, precisa se encantar por aquilo que ensina para proporcionar encanto para aquele que aprende.

Ensinar é um compromisso social, é muita responsabilidade!


Para melhorar a escola eu começaria melhorando a situação dos professores. É claro que, investir em parques, quadras, salas de artes, material escolar de boa qualidade e infraestrutura são fundamentais para o sucesso da escola. Mas nada disso adianta se não tiver profissionais competentes para compartilhar com os alunos.


Você vê muita diferença entre as áreas rurais e urbanas, entre o sudeste e sul e o norte nordeste, no que diz respeito à educação infantil? Como resolver esse problema?


O Brasil é um país bastante heterogêneo. É como se fossem vários pequenos países dentro de um só. Acho impossível ter uma unidade e um esquema de ensino que contemple todas as necessidades da mesma maneira.


Acho importante manter os regionalismos, a essência, a cultura e a diversidade de cada região. Não me incomodam as diferenças, mas sim a qualidade do ensino, independente da região em que está sendo oferecido. Mas é fato que, em um país com tantas desigualdades e tantos problemas sociais como o Brasil, as regiões rurais, norte e nordeste, menos favorecidas, acabam tendo um comprometimento maior na educação. É a nossa triste realidade!


Resolver este problema implica resolver também problemas de saneamento básico, moradias dignas, transporte público, falta de empregos, qualidade na formação de professores, subnutrição das crianças...


A melhoria na Educação Infantil para mim é a chave de esperança para um dia, termos um país mais justo e igualitário. Mas penso que está atrelada a outras frentes de trabalho que precisam de atenção e investimento em nosso país.


Cuidar da infância é cuidar do futuro!



Denise Schmitt Garcia

denisepersonalkids@gmail.com